terça-feira, 19 de junho de 2012

SERENIDADE

SERENIDADE...


«A serenidade não é feita nem de troça nem de narcisismo, é conhecimento supremo e amor, afirmação da realidade, atenção desperta junto à borda dos grandes fundos e de todos os abismos; é uma virtude dos santos e dos cavaleiros, é indestrutível e cresce com a idade e a aproximação da morte. É o segredo da beleza e a verdadeira substância de toda a arte.
O poeta que celebra, na dança dos seus versos, as magnificências e os terrores da vida, o músico que lhes dá os tons duma pura presença, trazem-nos a luz; aumentam a alegria e a clareza sobre a Terra, mesmo se primeiro nos fazem passar por lágrimas e emoções dolorosas. Talvez o poeta cujos versos nos encantam tenha sido um triste solitário, e o músico um sonhador melancólico: isso não impede que as suas obras participem da serenidade dos deuses e das estrelas. O que eles nos dão, não são mais as suas trevas, a sua dor ou o seu medo, é uma gota de luz pura, de eterna serenidade. Mesmo quando povos inteiros, línguas inteiras, procuram explorar as profundezas cósmicas em mitos, cosmogonias, religiões, o último e supremo termo que poderão atingir é essa serenidade.»

Herman Hesse, in 'O Jogo das Contas de Vidro'



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domingo, 17 de junho de 2012

ATÉ ONDE CHEGA O LONGE

... ATÉ ONDE CHEGA O LONGE...
chegara o tempo de admitir a sorte que me condenou
ao sofrível escrúpulo do ter de ser mais do que muitos. aqui, onde
escrevo, a minha glória consiste no desarranjar o fundamento com que
o resto dos homens enfeitaram o sistema. assim, exagero o limite e, ao
transpor o círculo, sou-me tentado ao vício das palavras - com um quarto
fechado e míseros restos de agonia fantasiada é isto, apenas, o que me
resta.
chegou mesmo no limite, esse tempo de que vos conto,
a infâmia de jurar, secreto e ocioso pelos inconcretos lugares da
memória… a que vasculho, reabrindo as gavetas e esgravatando o seu
púdico testemunho. assimilo e contenho o grito, ao notar-me entre
dano e desesperança. encontro uns manuscritos quase ininteligíveis.
agora sinto que a minha missão é a de decifrar o seu conteúdo. alcanço
os papéis; acerco-me da cadeira de baloiço e, ponho-me a pensar…
existe num silêncio visceral uma luminosidade intensa que me arrebata
e tende a resolver-me na véspera do sono.
pressinto, tardio chilrear de pássaros de fogo
penetrando arcos em espinhos.
volta aquele silêncio a pretender emprenhar a pátria
desta língua que uso, descarado e másculo. como sei que sofro as
diferenças dos tentados versos com os versos tentadores, respondo
mudo. essa situação jamais ficará por resolver!
em que parágrafo se defenderia melhor a máscara
resgatada ao fogo de alba? em que palavra se sentiria com maior eficácia
a quietude irresponsável a arrastar-nos para o desassossego manso?
sim. são estas por outras vizinhas questões que me afligem a noite e
sentenciam o sono.
pego nos papéis e volto ao ofício. sôfrego de
entendimento, pergunto-me ainda: que farei eu?
mas é forte o apelo que me solicita a vontade. irei
saber do que se trata. não ficarei por aqui.
que importa? vou fugir por aí, sem destino, a esconder
me com os papéis todos que não sei bem de que tratam. vou…
vem do longe um respiro que quero, por isso o invento.
vem como lâmina. eu tenho tudo sem destino para cumprir a missão!
irei assorrear as estrelas por aí fora e soletrar essas
palavras desses papéis. talvez até os solte ao vento e, perdidos,
assumam esse que, porventura, será o seu melhor destino: o de
voarem!!
regresso. venho com os papéis todos escondidos num
saco furtado a um desses quaisquer vadios que deambulam sonâmbulos
e bêbados (é incrível como bebem sendo pedintes de esmola) até
caírem num beco sujo para pernoitarem no segredo da primavera. e
estou cansado da viagem. também eu cairei. também tombarei, só que
com o peso desses - estes segredos todos. serei, talvez, também um
vadio? oh, mas minha esmola tarda em chegar! tenho-me, agora,
recolhido em posição de feto nesta cama suja pelo saco desse vadio
que, por estes momentos já terá um saco diferente, furtado quiçá a um
outro viandante noctívago.
começo a ter medo. sentir o pavor da máscara que não
consigo tirar, apesar de repetidas tentativas do novo que quero dar-me
para, enfim, adormecer.
repito-me na consciente afirmação de sujeito
convertido à missão dizendo o de sempre… o de sempre que tento
renovar a cada instante, quando, a galope, me surge a vontade
estonteada e fria mas lúcida. nunca consigo. pode ser que num dia
como este, esse repente de imaginatividade me surja sugerido pelos
tempos de exercício deste mesmo tempo das palavras medrosas e
temperadas.
tentarei ainda hoje conseguir contabilizar o longe. não
sei como nem com quê o conseguir, mas irá haver a chave, a fórmula,
e tem que ter o preço impresso custando o esforço que emprego nisto
e noutros enfins afins. haverá?
José Carlos Villar


NÃO DESISTO
O PIOR MEDO É TER MEDO DO MEDO
(cresci)


terça-feira, 12 de junho de 2012

DO OUTRO LADO DE MIM

DO OUTRO LADO DE MIM

traço o meu perfil sobre o papel rasurado
que me emprestam no café sem devolução
e é assim como sou que me é dado
este privilégio de resumir a criação.

reparo como se de fora estivesse
no retrato que sou sentado à mesa,
sorvendo o café como que houvesse
nessa vontade uma magna certeza.

olho-me de longe e não me pareço igual.
bebo água em seguida e penso
que o que sou que vejo é natural
… maturado preconceito dando à dor o
pseudo-senso.

repenso-me do outro lado.
olho-me e estranho-me ao notar
que sou quem olha despreocupado
o lado oposto de quem sou pr’a me olhar!

o papel rasurado como a alma golpeada
é a força do que creio ter ganho
pela ferocidade do olhar/espada
que me mata como se não suicida um
estranho

manhas, manias, taras de quem olha
e julga ter a certeza de ser no porquê,
o mesmo homem que do outro lado desfolha
as páginas da alma de quem o vê.
José Carlos Villar
In VERSUS
n. n. n.
1999


versos de quem olha
mas vê...
realizo-me neste meu sacrificio:
poetar o meio circundante
e tentar perpetuar a alma gigante das palavras,
das pessoas
do Sonho...
quando tudo parece tombar...
... mas não páro de sonhar:



sonhar...
... não paga imposto...

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O NOSSO SORRISO

O NOSSO SORRISO

p/ um amigo:


porque choro eu se me pedem um sorriso?

para que escondo eu, envergonhado, o meu sorriso?

digo a um amigo: sorri!

e quando eu puder mergulhar no teu sorriso

serei mais contente...

serei uma alma ardente

e morrerei para que ressuscites...

o amor é banal... está em todo o lado...

faz parte das coisas, das almas, dos verbos...

secreto entro na tua cabeça

e sinto que me sorris!

graças a Deus tenho o meu sorriso no cérebro de um amigo!

sabes?

sou eu. eu que viajante rebusco os vocábulos

incompletos, rasurados, rasgados, filtrados

para perpetuar o meu desejo na vontade contida de gargalhar contigo.

tenho saudade dos meus amigos...

choro como quem ri...

rio que se asfixia pelas margens que o sustentam...

naúfrago desaguo no teu sorriso...

descubro que há barcos para pernoitar..

e circulos de fogo para viajar...

gosto que gostem de mim...

eu até gosto de mim...!!!

só que escondo o sorriso... o nosso sorriso!

desnudo-me para viajar no arfar completo de um sorriso...

sei o teu dialeto...

e se te escrevo - eu que odeio ser poeta - é porque gosto de ti!

vou de rosto em rosto para arrancar um sorriso...

isso faz-me feliz!

... mas nas noites tenebrosas sonhando pesadelos

fico tonto e não sei por onde andar...

prefiro ver-te sorrir... e recordar que há desfios

onde escancaras o desejo...

sou teu amigo, sorrriso que nasce no meu amigo...

vou recolher todas as lágrimas que meus olhos cansados derramam

e sorrir para ti como se fosse o ultimo suspiro de alegria...

depois deixas-me morrer?

é que adoro ressuscitar!!!

obrigado... brinca a sério com os movimentos dos sentidos

que te realizam e me fazem anular

os meus caprichos de sonhador...

... sim. sei que és todo o seu amor...

J. C. Villar

junho _ 2012




BEM HAJAS

um abraço


terça-feira, 22 de maio de 2012

SOU O DEUS QUE DEUS ME DEU

... invade-me um arrepio no pensar que sinto tanto o arrepio!
chove serena e constantemente na vidraça da alma....
... carapaças dos estados d'alma que segredo num movimento eterno enquanto dura a eternidade da mesma...
fujo das vontades num suspiro pavoneado quando partilho o secreto no recôndito do meu sentir...
... e amo o amor como desejam que seja cavaleiro ateado de fogo nas palavras que empresto para reagir e corresponder ao apelo...
vou de boca em boca como colibri... beijando o perfume da vida...
sentir-me único; inimitável, irrepetível e singular desemboca nestes caracteres!!!
cai a noite... viandante, transeunte entrego-me vadio nos teus braços, queridos demónios na almofada vaga que te deixei e onde pernoitam em consequência da tua ausência...
quando regressares estarei longe... de mim... de todo o mundo que habito na minha quimera!
tombo no abandono e sou o anfitrião da solitude... eu que a nada aspiro e sofro as dores d'imaginar...
grato a Deus que me devolve o Deus na minha esperança...
é assim a minha mendicância noturna: o sonho sem sono... alerta morro na ressurreição do cansaço e cresço com as bofetadas da vida...
açoites abençoados e, grato despeço-me do teu corpo...
aí renasci neste sonho... tão belo como tu!!!


JOSÉ CARLOS VILLAR

sexta-feira, 18 de maio de 2012

À FADA DO FADO ETERNO

À FADA DO FADO ETERNO

Ó voz de diva lira!
Ó saudade da saudade
de um fado imortal
no sonho que Deus fez
ser um dia Português!...

Ó voz de jóia perdida
que brilha na escuridão
de um coração de sorriso
estampado no rosto
de uma canção!...

Com que voz,
ai lama da vida,
ai guitarra a sós,
chorando uma lágrima
num barco negro...

O voz ante a solidão
de quem quer agarrar
eternamente
um não sei o quê
que escapa à razão!...

Ó estranha forma de sentir!
Com que voz e por vós!...

ISABEL MORINGA


NÃO TENHO MEDO DE TI Ó MEDO...

(texto escrito por Isabel Moringa)
um hino`ao Fado... um estandarte à solidão...
A BANDEIRA DA NAÇÃO


A SEGUIDORA
MARIZA
DEU RENOVADA VOZ AO FADO
ESTE PATRIMÓNIO
DA...
HUMANIDADE

CRIADOR DE DESTINOS

CRIADOR DE DESTINOS
p/  uma ilustre anónima:

num mar de imensos talentos ocultos
onde as águas se rendiam aos ventos,
surgia um Adamastor por entre os vultos
que se espraiavam em tristes lamentos!

o Gigante era culto… felizmente diplomado!
assim prostrado no seu trono ostentando poder
perante os mortais vítimas de um Fado
construído a partir dos amigos do saber.

quebravam-se as leis malvadas do Destino
que são a razão das críticas que assino
embora permaneça a ideia de ser julgado.

e o sentir inveja de alguém superior,
é força que tento dominar,  com pudor!
é sentir o fim de algo ainda nem começado.

José Carlos Villar


UMA SINGELA HOMENAGEM A QUEM COMO ESTA ILUSTRE SENHORA, CRIA DESTINOS
E OS ENOBRECE NA CUMPLICIDADE DA DESCOBERTA DE OUTROS DESTINOS AFINS...

UM BEM HAJA: